Educação ambiental envolve participação e comunicação
Neste domingo (3/06), será comemorado, pela primeira vez, o Dia Nacional da Educação Ambiental. Instituída pela Lei nº 12.663 em 14 de Maio. Confira a entrevista com Nilo Sérgio, diretor do Departamento de Educação Ambiental do MMA
01/06/2012
A data é uma referência à abertura da Eco92, Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, ocorrida no Rio de Janeiro, em 1992.
Segundo Nilo Sérgio de Melo Diniz, diretor do Departamento de Educação Ambiental do MMA (Ministério do Meio Ambiente), embora seja cada vez mais necessário a sociedade e o estado refletirem e atuarem em favor da qualidade de vida e, portanto, do ambiente, em todos os dias do ano, sendo a educação um instrumento fundamental nesse contexto, é interessante estabelecer-se um entre os 365 dias para uma reflexão e ações mais dirigidas e motivadas.
“Ainda mais porque é antevéspera do Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, servindo para lembrar que a expansão da consciência e da responsabilidade de todos sobre dilemas contemporâneos relacionadas à vida, depende fundamentalmente de educação, informação, participação e mobilização social”, observa.
Em entrevista ao SEESP, o representante do MMA falou sobre a nova data e os desafios do País em defesa de um desenvolvimento sustentável, apontando, ainda, que os catadores de material reciclável são verdadeiros educadores socioambientais.
SEESP – O ministério vai organizar alguma ação para comemorar o dia?
Nilo Sérgio –
A Lei foi sancionada 20 dias antes do primeiro dia nacional da educação
ambiental. Isso surpreendeu a todos os educadores e gestores ligados à
educação ambiental. Há segmentos que inclusive criticaram a iniciativa,
com todo o direito, argumentando, por exemplo, o risco de escolas
forçarem alunos a realizar trabalhos nesta nova data, pontualmente, sem
qualquer aprofundamento sobre o sentido dos processos educativos
relacionados ao tema socioambiental. O Ministério do Meio Ambiente,
principalmente por meio da Secretaria de Articulação Institucional e
Cidadania Ambiental e de seu Departamento de Educação Ambiental, já
programava algumas iniciativas para este período que agora servirão
também para comemorar a data. A ministra Izabella [Teixeira], por exemplo, abriu a semana do meio ambiente no Conama [Conselho Nacional do Meio Ambiente],
no dia 30 de maio, anunciando a nova Portaria 169/2012 que institui o
Programa de Educação Ambiental e Agricultura Familiar, voltado a formar e
fortalecer com agricultores e suas lideranças técnicas e políticas em
favor da agroecologia, da produção florestal sustentável, da
regularização e recuperação ambiental da propriedade rural. Trata-se do
atendimento a uma demanda que os movimentos sociais do campo vêm
apresentando ao Governo Federal, nos anos recentes.
SEESP – O que é "educação ambiental"?
Nilo Sérgio – Desde a Conferência Intergovernamental de Tbilisi [ocorrida em outubro de 1977, em Geórgia, ex-União Soviética],
trabalhamos o conceito de educação ambiental como "um processo de
reconhecimento de valores e clarificações de conceitos, objetivando o
desenvolvimento das habilidades e modificando as atitudes em relação ao
meio, para entender e apreciar as inter-relações entre os seres humanos,
suas culturas e seus meios biofísicos. A educação ambiental também está
relacionada com a prática das tomadas de decisões e a ética que
conduzem para a melhora da qualidade de vida". Por isso, 15 anos depois,
o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global,
uma iniciativa da sociedade civil internacional, afirmava que "a
educação é um direito de todos (...), deve ter como base o pensamento
crítico e inovador, em qualquer tempo ou lugar, em seus modos formal,
não-formal e informal, promovendo a transformação e a construção da
sociedade. (...) É individual e coletiva, não é neutra, mas ideológica. É
um ato político”. Antes de tudo, educação ambiental, como outras
vertentes contemporâneas, é a educação do nosso tempo e lugar. O
adjetivo ambiental é importante por isso, e também para afirmar
princípios com um mundo melhor para todos, inclusive todas as formas de
vida.
SEESP – A posição do Governo Federal com relação ao novo Código Florestal já faz parte dessa "educação ambiental"?
Nilo Sérgio –
Há muitos anos o Brasil discute o Código Florestal como mais uma
evidência de que está em jogo um longo processo de transição em nossa
sociedade. Esse é um dos mais importantes debates políticos que a
sociedade e o estado enfrentam na atualidade, onde o componente
educativo também está presente. Diferentes interesses e respectivos
argumentos, num contexto democrático, modificam a maneira de pensar de
todas as partes envolvidas. Evidente que todo o processo de mudança gera
reações conservadoras e mobiliza forças progressistas, que se
enfrentam. No ano de 2000, esse debate já se fazia no Congresso Nacional
e, na época, o Executivo Federal diante do impasse encaminhou medida
provisória para consultas regionais organizadas pelo Conama. Desta vez, o
Governo Federal enfrentou a discussão com o Congresso defendendo, ele
mesmo, posições que procuram mediar a conservação ambiental com a
produtividade rural. Ou seja, pode se discutir uma ou outra posição
tomada, mas novos conteúdos e valores sobre o ambiente florestal,
emissões de gases de efeito estufa e conservação das águas estão
presentes nas diferentes políticas públicas dos governos. Isso permitiu
que o governo se posicionasse, mediando as posições em conflito. É um
tema complexo, onde a prudência recomenda que se examine bem todas as
reações setoriais nessa condução que precisa ser técnica e política. A
educação ambiental, que envolve participação, informação e comunicação,
interage por todos os lados.
SEEP – Quais os problemas mais graves que o País enfrenta em termos de agressão ao meio ambiente?
Nilo Sérgio –
Podemos destacar a contaminação do solo e das águas, o desmatamento de
alguns biomas, os efeitos desastrosos das mudanças climáticas, a
qualidade de vida nas grandes cidades, com lixões comprometendo a saúde
pública e congestionamentos dificultando a mobilidade urbana, entre
outras questões. Mas embora tenhamos mais desafios a enfrentar do que
vitórias a comemorar, é justo reconhecer que para cada um desses
problemas o governo tem implementado políticas, programas e ações
formuladas de maneira participativa. Nesta semana do meio ambiente, por
exemplo, o ministério, por meio da Agência Nacional de Águas e da
Agência Espacial Brasileira, fechou uma parceria para que novos
satélites façam o mapeamento completo dos rios do País. Será uma
iniciativa importante a potencializar ações previstas no Plano Nacional
de Recursos Hídricos. O desmatamento da Amazônia vem caindo ano a ano
desde 2005, o que ajuda a explicar porque o Brasil reduziu as suas
emissões de CO2 em mais de 500 milhões de toneladas, meta que deveria
ter sido alcançada, e não foi por países do Protocolo de Kyoto. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, estabelecida por lei desde 2010, determinou uma data para o fim dos lixões no país, 2014, atendendo a pleito da III Conferência Nacional de Meio Ambiente
(2008). Além disso, poderá promover uma grande mudança cultural em
relação ao lixo, reduzindo-o drasticamente ao transformar grande parte
em matéria prima e em fonte de dignificação do trabalho dos catadores de
material reciclável, verdadeiros educadores socioambientais.
Fonte: Imprensa – SEESP
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