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29/08/17

Não se adaptar às mudanças climáticas sairá no mínimo cinco vezes mais caro

Projeto, apoiado pela Fapesp e pelo Belmont Forum, iniciativa internacional que estuda estratégias de adaptação aos impactos das mudanças climáticas, constata que é mais vantajoso planejar cidades para mudanças climáticas.

Imagem: Agencia FapespImagem: Agencia Fapesp

Como outras cidades costeiras, a cidade de Santos, no litoral paulista, vive uma situação que lembra a fábula da formiga e da cigarra. Com a expectativa de que o nível do mar continue a aumentar nos próximos anos, enfrenta o dilema de se adaptar ao que vem pela frente ou ter que pagar o preço alto de ressacas e inundações cada vez mais frequentes.

A adaptação às mudanças climáticas implica obras caras para o orçamento de um município. No caso de Santos, os valores estão definidos. Um amplo estudo concluiu que o custo mínimo com obras na região da Ponta da Praia de Santos e na Zona Noroeste ficaria em torno de R$ 300 milhões. Já o preço por não se adaptar às mudanças climáticas chegaria, pelo menos, à cifra de R$ 1,5 bilhão, fora todo o sofrimento causado à população.

“Mas esse custo de R$ 1,5 bilhão pode estar subestimado, uma vez que o modelo considera apenas a estrutura física de imóveis e os cálculos são baseados no seu valor venal. Se incluirmos prejuízos em outras áreas, como saúde e educação, por exemplo, o valor chegaria facilmente a R$ 3 bilhões”, disse José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e coordenador do Projeto Metrópole, à Agência Fapesp.

O cálculo faz parte do resultado final do projeto, apoiado pela Fapesp e pelo Belmont Forum, iniciativa internacional que estuda estratégias de adaptação aos impactos das mudanças climáticas em três localidades costeiras: Santos, Selsey (Inglaterra) e o condado de Broward (Flórida, Estados Unidos).

No projeto, que se encerra após quatro anos de estudos, o grupo de pesquisadores do Cemaden, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Instituto Geológico (IG) e das universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp) seguiu três eixos de pesquisa: estimativa de perdas econômicas e análise de capacidade adaptativa, modelagem dos extremos climáticos e impactos na saúde. Os cenários consideraram projeções para os anos de 2050 e 2100.

A análise dos impactos na saúde é uma mostra de como os impactos climáticos são amplos, atingindo diversos setores da sociedade. Nela, os pesquisadores calcularam a relação do aumento das temperaturas com a incidência de dengue. Foi observado que, quando há essa conexão, só os gastos com internação e tratamento para pacientes, em Santos, sobem em pelo menos R$ 720 mil.

“A saúde é um fator-chave que afeta diretamente a vida da população, por isso é importante ter esses dados para justificar a necessidade das medidas adaptativas. Colocamos alguns valores, mas se juntarmos todas as doenças relacionadas ao aumento de temperatura e às inundações, que desabrigam pessoas, conseguimos ver o real impacto desse problema na área da saúde”, disse Luiz Eduardo Oliveira e Cruz de Aragão, pesquisador do Inpe e integrante do projeto.

Aragão explica que o estudo de análise de risco e estratégia de adaptação identificou a conexão entre o fenômeno do El Niño e o aumento dos casos de dengue nos verões de 2010 e 2015.

“Já foi levantado que o El Niño causa aumento de temperatura e agora conseguimos relacionar esse aumento de temperatura anômalo com a proliferação dos casos de dengue. É importante essa ligação, pois conseguimos entender os padrões climáticos e suas consequências e quantificar o impacto para a cidade”, disse.

Ciência, poder público e população

Em Santos, o nível relativo do mar tem aumentado em taxas diferentes desde a década de 1940. “Com base em séries históricas, identificamos dois possíveis cenários para a cidade, um mais realista (taxa de elevação do nível relativo do mar de 0,36 cm/ano) e outro, o pior dos cenários (taxa de 0,45 cm/ano). Com base nesses dois cenários, a conclusão foi que o nível do mar pode aumentar entre 18 e 23 centímetros até 2050 e entre 36 e 45 centímetros até em 2100”, disse Celia Regina de Gouveia Souza, pesquisadora do Instituto Geológico e participante do projeto.

O modelo também considera a ocorrência de eventos extremos, como marés meteorológicas e ressacas – cada vez mais frequentes por causa das mudanças climáticas – que resultam em um rápido aumento do nível do mar.

Segundo Gouveia Souza, que mantém um banco de dados sobre a ocorrência desses eventos extremos na Baixada Santista (1928 a 2016), observou-se um aumento considerável do número de eventos de ressaca por ano e outro aumento no número de anos consecutivos com ressacas, a partir do final da década de 1990.

“A série histórica de dados maregráficos de Santos apontou que o nível máximo atingido durante um desses eventos extremos durante a década de 2000 foi de 146 centímetros. As projeções indicam que ele poderá atingir 160 centímetros em 2050 e 166 centímetros em 2100. Com isso, a cidade ficará ainda mais suscetível e vulnerável às inundações costeiras e a erosão na praia aumentará e migrará na direção do Bairro do Embaré (Canal 4)”, disse a pesquisadora do IG.

Após analisarem os cenários de inundações costeiras para 2050 e 2100 e obterem os danos potenciais sobre os imóveis atingidos, os pesquisadores compartilharam os resultados com a população de Santos e o poder público, para a indicação das melhores medidas de adaptação.

“Nessas discussões com a população é que apareceram as opções de adaptação. Uma delas é a fortificação: construção de muros, diques e melhorar a estrutura. Em outros casos, há medidas como o engordamento da praia. Outra estratégia que vimos como necessária para Santos é a recuperação dos manguezais, que entra na categoria de adaptação baseada em ecossistema”, disse Marengo.

“As medidas escolhidas pela população foram bastante adequadas. Esperamos agora que o projeto continue a ser encampado pela população e pelo poder público. Assim, teremos uma perspectiva bastante positiva de que o cenário sombrio não vai acontecer”, disse Luci Hidalgo Nunes, pesquisadora da Unicamp e participante do projeto.

Santos, onde está o maior porto da América Latina, foi escolhida pelos pesquisadores do Projeto Metrópole como objeto de estudos não só pela relevância econômica, mas também por ser a cidade costeira brasileira com melhor qualidade de dados históricos sobre marés, chuvas, temperatura e ressacas.

“A adaptação, ainda que seja discutida pela ciência e pelos tomadores de decisão, tem que ter uma política. Tem que partir do governo. É uma ação que não pode parar e que, obviamente, tem que ter investimento. A cidade de Santos chegou a um alto nível de conscientização, com um amplo diálogo entre população, tomadores de decisão e academia. As obras devem ser feitas, pois quando isso fica apenas no papel é o pior que pode acontecer”, disse Marengo.

Fonte: Fapesp


(publicado por Deborah Moreira)





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