Impedir que Dieese feche as portas

Crise econômica e reforma trabalhista ameaçam pesquisas, estudos e informações essenciais aos trabalhadores.

Foto Bia Arruda
Atividade na sede do Dieese, em 10 de outubro, debate inovação e desafios no mundo do trabalho.

O quadro econômico adverso que o País enfrenta, aliado aos impactos da reforma trabalhista (Lei 13.467/2017), tem entre suas vítimas pesquisas, estudos e informações fundamentais para subsidiar políticas públicas e boas negociações ao movimento sindical.

O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) vivencia a pior crise de sua história desde a redemocratização do Brasil. “O rebatimento sobre as condições operacionais da instituição pode inviabilizá-la, se não forem tomadas medidas de mudança de rota”, alerta o diretor técnico do órgão, Clemente Ganz Lúcio. Para fazer frente a essa situação, ao fim do primeiro semestre de 2017, foi lançada a campanha “Dieese, confio e apoio: unir, resistir e avançar” (confira em https://goo.gl/d1x9ZH).

“É uma iniciativa para tentar viabilizar a resistência da instituição diante de um cenário que veio se agravando com a crise fiscal e as restrições colocadas com as cooperações que o Dieese tem, especialmente com o poder público, mas que agora se intensifica com a crise que vive o movimento sindical em função da reforma. As duas fontes de recursos do Dieese estão sendo atacadas e isso tem efeito sobre seu financiamento de maneira muito intensa”, explica Ganz Lúcio. Ele proclama a importância do órgão na luta social, para o movimento sindical e a vida democrática do País, e enfatiza: “Tem um patrimônio que é sua credibilidade, construído em mais de seis décadas de trabalho, que precisa ser preservado.”

Em sua primeira etapa, a campanha era voltada à arrecadação junto a organizações associadas ao Dieese. Agora, amplia-se e busca tanto mobilização quanto divulgação do trabalho desenvolvido pela instituição à sociedade e entidades. “Até fevereiro devemos instituir um conjunto de diretrizes para orientar a estratégia daqui para frente.” Seus objetivos são, segundo o diretor técnico, por um lado, reapresentar e convidar o movimento sindical a utilizar a prestação de serviços do Dieese para se reinventar e, de outro, buscar recursos para a própria reorganização. Abriu-se inclusive a possibilidade de contribuições individuais.

Impactos

Apesar de não estar na iminência de fechar as portas, ao menos por ora, a instituição já enfrenta redução em sua estrutura. Nos últimos dois anos, como conta Ganz Lúcio, viu-se obrigada a dispensar mais de 70 trabalhadores, número que pode aumentar substancialmente até o final do ano. “Tivemos uma crise muito grave em 2003 quando as receitas sindical e extrassindical caíram, mas identificamos naquele contexto que o País teria perspectiva de crescimento econômico com as características que depois observamos. A gente apostou nisso e construiu uma estratégia de organização do Dieese, o qual saiu de 150 pra 340 trabalhadores em nível nacional. A instituição se reorganizou para um movimento sindical e uma economia que cresceram. Agora significa pegar toda essa estratégia de uma equipe formada para estruturar-se como uma instituição que se expande e reverter. É muito difícil, num cenário em que olhamos para a frente e não sabemos o que vai acontecer, de um país que está entregando a sua soberania”, lamenta ele.

Nesse quadro, várias seções em sindicatos deixaram de funcionar e outras podem ter o mesmo destino. “Havia regionais em todos os estados, já fechamos algumas, o que implica perda de capacidade de atendimento ao movimento sindical e à sociedade em certas localidades. Temos agora escritórios em 19 estados e unidades locais de atendimento e pesquisa em todas as capitais. Interrompemos a Pesquisa da Cesta Básica que até agora vinha sendo nacional, não é mais desde meados do ano passado. Tivemos que encerrá-la em algumas capitais por falta de financiamento, como Rio Branco, São Luís, Teresina, enfim, nos estados menores inclusive do ponto de vista sindical”, informa o diretor técnico. Segundo ele, nessas cidades provavelmente a pesquisa do Dieese era uma das poucas locais com divulgação e presença na mídia, “o embrião para o Dieese estruturar uma unidade de atendimento, alavancar opinião e atender o movimento sindical local”. Ele ressalta: “Não conseguimos concluir essa etapa porque a crise fiscal interrompeu o contrato que financiava esse tipo de expansão.”

Outro efeito é sobre a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED). “O risco de descontinuar é muito alto. Já interrompemos em algumas capitais. Podemos perder o termômetro ou a máquina para fazer essa ultrassonografia da reforma trabalhista. Vamos ter o problema e não vamos conseguir mensurar”, explicita. E conclui: “Queremos preservar o máximo, mas não será possível com esse tamanho de ajuste manter tudo o que estamos fazendo.”

Na ótica de Ganz Lúcio, o Dieese ao final sairá “com a cara que o movimento sindical der a sua própria reorganização. Queremos que o conjunto de entidades ajude a redesenhar o papel da instituição colada à sua estratégia”. Apesar das dificuldades, ele mantém-se otimista: “Temos que fazer todo um movimento apostando que vamos reverter esse quadro e o futuro vai abrir novas possibilidades, outras tarefas. A campanha, cuja prioridade neste momento é a preservação do Dieese, está correta em criar as condições para tanto.”

Fonte: Federação Nacional dos Engenheiros

(Matéria de Soraya Misleh, publicada originalmente na edição 189 do Engenheiro, jornal impresso da FNE, que pode ser acessado neste link)

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