Pela primeira vez em décadas, Europa faz cortes na saúde

Levantamento da OCDE mostra que governos europeus inverteram a tendência registrada nas décadas passadas e começaram a cortar recursos do setor; ainda assim, em valores absolutos, os gastos nessa área por habitante sã

Há poucas semanas, um caso comoveu a opinião pública grega. Uma mulher deu à luz em um hospital no sul do país. Dias depois, recebeu, ainda em seu leito, uma conta de 1,2 mil (cerca de R$ 3,3 mil) pelo atendimento. A mulher informou que não tinha como pagar e a resposta que recebeu causou polêmica: se não quitasse sua dívida, não poderia levar o bebê do hospital.

Diante da comoção nacional, o hospital acabou cedendo e não cobrou pelo parto da moça. Assim, a crise que assola a Europa começa a ser sentida de forma profunda não apenas nas bolsas de valores ou nos mercados.

Pela primeira vez em quase 40 anos, os endividados países europeus reduzem os orçamentos para a saúde, em um dos exemplos mais claros de como as políticas de austeridade estão desmontando parte do sistema de bem-estar social criado na Europa após a Segunda Guerra Mundial.

Um levantamento produzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revela que, a partir de 2010, governos europeus inverteram a tendência de décadas passadas e passaram a cortar gastos com a saúde. Em 2010, o corte de gastos por habitante foi de 0,6%. Foi o primeiro corte desde 1975. E ele foi mantido em 2011 e em 2012.

Só na Irlanda, por exemplo, a redução foi de 8%, depois de ter sido elevada a cada ano, em média 6,5%, entre 2000 e 2009. Na Estônia, a redução nos gastos com a saúde foi de 7,3%.

Em termos absolutos, porém, os gastos de governos europeus com a saúde continuam sendo bem superiores ao brasileiro. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), Brasília destina à saúde de um cidadão um quarto do que gregos destinam aos seus. O governo brasileiro garante cerca de US$ 433 por ano pela saúde de cada habitante, na Espanha o volume chega a quase US$ 2 mil.

Cortes. Em média, 9% do Produto Interno Bruno (PIB) dos países europeus vai para a saúde. Há dois anos, a taxa era de 9,2%. Países como Alemanha, França e Holanda continuam com taxas acima de 11%. Na Grécia, o corte foi de 6,7% só em 2010. Mas o número deve subir para 10% ao fim de 2012. No total, 2,5 bilhões desaparecerão dos orçamentos da saúde em cinco anos.

A Merck decidiu interromper o suprimento de remédios contra o câncer para os hospitais gregos. Isso por causa de milhões de euros que esses hospitais devem à empresa alemã há meses e simplesmente não têm como pagar.

A Federação Europeia da Indústria Farmacêutica garante que as empresas já deram descontos de 7 bilhões aos países do sul da Europa na venda de remédio. Mas nem isso adiantou.

O governo grego chegou a pensar em adotar uma regra que, para ser atendido, um paciente teria de pagar 25 em um hospital público, além de 1 extra para cada receita. O valor foi considerado escandaloso, numa sociedade em que parte dos aposentados vive com menos de 500.

Entre os médicos, a decisão foi a de atender idosos e pobres de graça, mesmo que o sistema os recuse. “Precisamos manter a sociedade grega viva”, disse Dimitris Varnavas, presidente do sindicato de médicos do país. Mas ele reconhece que a população está perdendo a calma. Hospitais colocaram placas pedindo que os doentes sejam solidários ao aguardar o atendimento. “Trate os funcionários desse hospital de forma civilizada. Há seis meses eles não recebem salários”, diz uma das placas. (O Estado de S. Paulo)

 

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