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28/06/16

Arquitetura para encher os olhos e promover a dignidade

Em entrevista, Ruy Ohtake fala sobre seu engajamento ao projeto “Brasil 2022: o País que queremos”, para o qual criou uma logomarca, e aborda os desafios e possibilidades estéticas e de cidadania da arquitetura.

No próximo dia 1º de julho, durante a 9ª Jornada Brasil Inteligente, o arquiteto Ruy Ohtake apresenta a logomarca que criou para o projeto “Brasil 2022: o País que queremos”. O engajamento à iniciativa da CNTU converge com uma trajetória de mais de 50 anos de carreira, desde a formação em 1960 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), na qual vem cumprindo o desafio de aliar estética à cidadania e coloca o talento e a criatividade a serviço do bem-estar humano.  “A arquitetura tem que encher os olhos da cidade. Tem que conseguir de alguma forma magnetizá-la e tem que mostrar o seu tempo. E pode ajudar a se ter uma cidade mais igualitária”, resume ele.

Uma das grandes intervenções de Ohtake nesse sentido é o projeto do Condomínio Residencial de Heliópolis, como ele fez questão de batizá-lo no lugar do tradicional “conjunto habitacional” utilizado para moradias populares – ou os Redondinhos, como foram apelidados pelos moradores os prédios circulares criados pelo arquiteto. Localizado na comunidade de 190 mil pessoas na Zona Sul da Capital paulista, o empreendimento abrigou 400 famílias nas duas primeiras etapas e receberá mais 400 quando estiver pronta a terceira. Selecionados entre os que viviam nas áreas de maior risco, às margens dos córregos poluídos que cortam o bairro, e os que estavam na comunidade há mais tempo, os felizes habitantes dos Redondinhos aprovaram o projeto. Até porque participaram da sua concepção desde o início, conforme contou o arquiteto em entrevista ao portal da CNTU.
 
Na conversa, Ohtake falou ainda sobre a participação na Art Basel, em 16 de junho, quando fez uma palestra sobre criatividade e tecnologia aplicada à arquitetura, dando exemplos de obras como o Pavilhão do Menino Pescador, localizado em Ubatatuba, no litoral paulista, o Hotel Unique, em São Paulo, e o Aquário do Pantanal, em Campo Grande. Essas estão numa lista extensa de realizações, que, entre outras, incluem o Centro de Memória e Cultura USP Leste; o Hotel Renaissance, a  Embaixada do Brasil em Tóquio, Japão; o Hotel Golden Tulip Brasília Alvorada, na Capital Federal; e o Centro Cultural de Jacareí (SP).

Um retrospecto de “quatro décadas de carreira, mais o período 2008 a 2015”, pode ser conferido no livro Ruy Ohtake – Arquitetura e Design, a ser lançado no dia 4 de julho, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.


O que o senhor achou do convite para criar a logomarca do projeto “Brasil 2022: o País que queremos”?
Há dois anos, estive no Seesp (Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo) numa reunião, cuja pauta era a discussão de alguns itens importantes para os engenheiros e para o desenvolvimento do Brasil. No ano passado, fui premiado pelo sindicato (prêmio Personalidade da Tecnologia em Desenvolvimento Urbano). Eu me propus, dentro do programa que o sindicato tem de aperfeiçoamento profissional, a fazer algumas palestras. Me propus a isso diante do entusiasmo que vi lá, não só da diretoria, mas do auditório lotado naquela noite. Acho que nós, com um pouco mais de anos de trabalho, temos obrigação profissional e de cidadão de discutir com os mais novos, todas essas questões que o sindicato levanta. A programação que o sindicato faz para o seus profissionais, é muito importante. Se todos tivessem o mesmo entusiasmo e as mesmas proposições, seria um intercâmbio importante para a formação, cada vez mais ligando o trabalho de todos nós aos propósitos do Brasil. Foi por isso que quando o Allen (Habert, diretor da CNTU) me convidou para fazer a logomarca, eu aceitei de muito bom grado e com muito entusiasmo. É um desafio um pouco diferente do que estou habituado com projetos de arquitetura ou de urbanismo, mas busquei fazer uma síntese. Apresentei três estudos e resolveu-se pegar duas das alternativas e fundi-las. Será apresentada na sexta-feira.


Qual o papel da arte e da cultura numa agenda como essa?
O Brasil 2022 é uma oportunidade boa para rediscutir o ambiente que existiu há 100 anos, numa espécie de revigoramento da arte brasileira. A Semana de Arte Moderna foi muito importante, marcou muito 1922. Ao comemorar os cem anos, é uma oportunidade muito adequada para dar o passo, não de discutir o passado, mas de propor o “para frente”. Esse é o desafio que a CNTU tem, fazer um chamado em nível nacional. Com os recursos e a criatividade que o Brasil tem, precisamos avançar. Estive na Art Basel, participando de um fórum cujo tema foi criatividade e tecnologia, então mostrei que apesar de não termos o mesmo nível tecnológico que os Estados Unidos ou alguns países europeus, temos essa capacidade de liberdade de criatividade que pode contribuir no conjunto (leia mais abaixo).

Como foi a experiência de desenvolver os projetos para o bairro de Heliópolis? Qual a importância disso como arquiteto e cidadão?
Esse é o projeto que a gente chama de Redondinhos, apelido dado de forma muito carinhosa pela comunidade e que ficou conhecido até na Suíça. Foi feito entre 2008 e 2009. Eu já tinha contato com a comunidade de Heliópolis antes e tenho por ela respeito e  carinho. Eles mostraram que uma parte do futuro do Brasil está lá. Quem acredita no Brasil tem que acreditar em comunidade. Comecei a usar essa frase nas palestras, porque aquela comunidade é uma coisa impressionante. Tenho ido lá a cada 15 dias, com ou sem trabalho; às vezes só para tomar uma cachacinha no bar do Geraldo. Quando começamos, minha preocupação era que trouxesse dignidade para os moradores. Independe o custo, pode ser uma obra requintada ou simples, mas ambas devem ter dignidade. Fizemos uma mesa-redonda com a comunidade e o resumo foi o seguinte: “Ruy, a gente não sabe viver em prédios muito grandes, com aqueles corredores. Se você puder pensar alguma coisa que não tenha corredor, seria ótimo.” Esses corredores tendem a virar lugar paras crianças andarem de skate, ou para as mulheres venderem bolo caseiro, mas também entram as drogas e a prostituição.
A ideia inicial foi um prédio de planta pequena, quadrado, com quatro apartamentos e a escada no centro. Mas toda intervenção que eu faço como arquiteto tem a questão da dignidade, mas também a plástica, a estética. Então, depois de uns 20 dias estudando voltei lá com uma proposta. Na hora que eu faço um círculo, não pode se colocar outro justaposto, tenho que automaticamente separar um do outro. Então, isso garante insolação, ventilação e um visual que eles nunca tiveram. Aprovar na Secretaria da Habitação foi um parto. Eles estão acostumados a fazer um prédio comum com corredor longo, que dá um aproveitamento X do terreno; com os redondos dava menos. Após seis meses de discussão, a Prefeitura acabou topando. Colocamos o estacionamento fora do gradil que cerca a área e os redondinhos têm a seguinte característica: o chão é dos meninos, não tem que disputar com os carros. Ou seja, ficou um parque. É um projeto que pode ser colocado em qualquer bairro. A arquitetura pode ajudar a ter uma cidade mais digna, mas igualitária. A primeira etapa, para 200 famílias, foi concluída há três anos e foi um sucesso. Então, foi feita a segunda para mais 200. Está em construção a terceira etapa para 400 famílias.  E não chamamos de conjunto habitacional, termo que traz tristes memórias, mas de  Condomínio Residencial de Heliópolis. Qualquer trabalho nas comunidades carentes tem que ter esse lado da cidadania, não é só o profissional.


Qual o propósito estético da sua arquitetura, marcada pela curvas e cores?

A arquitetura tem que encher os olhos da cidade. Tem que conseguir de alguma forma magnetizar a cidade. E tem que mostrar o tempo. Vamos voltar ao projeto da CNTU. Há cem anos, foi importante o movimento, então vamos tentar fazer um novo para os próximos cem. Essa questão dos movimentos refletirem a contemporaneidade é muito importante. E o Brasil é um país que sempre utilizou cores. Você vai ao interior da Paraíba, as casas são coloridas. E não é corzinha europeia, é a cor forte, a cor que eu chamo de compromisso. Desde recém-formado, comecei a usar cor, mas era um pecado. Até dez anos, acho que fui o único arquiteto que usava cor. E a curva exige um pouco mais de sensibilidade de quem constrói. Os materiais que nós temos são todos retos.  


Qual a sua obra preferida?

Eu gosto de todas; a predileta é sempre a próxima que ainda não sei qual é.

 

Rita Casaro - Comunicação CNTU

 


Pegada brasileira na Basileia

No dia 16 de junho, o arquiteto Ruy Ohtake participou como convidado especial de um fórum sobre criatividade e tecnologia durante a Art Basel, feira de arte moderna e contemporânea realizada na Basileia, na Suíça, que recebeu 86 mil visitantes neste ano. Descartando o debate meramente teórico da tecnologia da arquitetura, o brasileiro, durante sua intervenção, deu exemplos de como alcançar resultados sociais e estéticos, apresentando algumas de suas obras.

Uma delas foi o pavilhão projetado em 2004 na comunidade de Ubatumirim, em Ubatuba, litoral de São Paulo, a pedido da atriz Ruth Escobar, que planejava atividades culturais para complementar a formação das crianças em idade escolar, com dança, teatro, desenho etc.  “Não havia eletricidade, portanto, não havia televisão. A garotada lá tinha zero de informação”, conta ele.

O plano então foi desenvolver um espaço multifuncional que fosse contemporâneo e fizesse sentido para os jovens que o utilizariam. O resultado foi o projeto, cujo desenho lembra um peixe. O pavilhão, de 825 metros, tem cobertura de tijolo em abóbada, com paredes de bambu trançado. “É uma técnica que os pescadores, os pais dos garotos, dominam. O foco é: o desenho, em vez de algo abstrato, tem que estar no repertório do garoto, e permitir usar a mão de obra local”, explica Ohtake. A janela, que representa o olho do peixe, é um ponto de fibra ótica.

Outro dos exemplos apresentados ao público da Basileia foi o Hotel Unique, considerado pela revista Condè Nast Traveler, em artigo do crítico internacional de arquitetura, Paul Goldberger, como uma das sete maravilhas do mundo moderno. O prédio de sete andares tem a fachada de placas de cobre, pré-oxidadas em três tons de verde. Um primeiro desafio da obra era ter curvas perfeitas nos dois vazios que descem da altura de 25 metros. Outro era manter a elegância do desenho fazendo com que o encontro das placas de cobre, com a madeira de ipê de reflorestamento e o concreto, também utilizados na obra, se desse num pequeno ponto. Assim, a fachada lateral do prédio, que pelo cálculo estrutural inicial precisaria ter 60cm de espessura, foi reduzida nas extremidades para 3cm, graças aos esforços do engenheiro Mário Franco.  “Então, quando você olha, encontram-se num ponto, que significa um olhar para o infinito”, afirma.

A terceira obra apresentada da Art Basel foi o Aquário do Pantanal, que tem previsão de estar pronto no final deste ano. Com quase 100 metros, tem dois terços de cobertura de zinco, com vidro ao centro e estruturas metálicas vermelhas. “Não adianta só ter a tecnologia, é preciso saber usar com criatividade”, conclui.
(Rita Casaro)

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